11/06/2017 às 09h55min - Atualizada em 11/06/2017 às 09h55min

Nossos mortos

Foto: Ilustrativa
 

Os restos mortais do grande craque de futebol Garrincha teriam desaparecido de sua cova.

A notícia me lembrou uma ligação telefônica que recebi no ano passado. Por algum motivo burocrático que só pode ser explicado pela pobreza momentânea atravessada ou por esquecimento, meu grande assessor para assuntos extravagantes (Aluzimar) não havia pago a mensalidade/manutenção do jazigo dos meus pais lá no Parque das Acácias.

A gentil senhorita me pegou num momento aluado, e disse que o atraso poderia acarretar algumas consequências. Eu raciocinei imediatamente como Advogado. Será que ela iria despejar os ossos dos meus pais? Ou pior ainda, levar a leilão seus restos mortais para pagar a dívida?

Tudo se esclareceu imediatamente graças à educação da moça e à presteza de Aluzimar em pagar o que era devido. Mas a questão jurídica me perseguiu por um bom tempo. O que será que acontece quando alguém deixa de pagar a mensalidade de um jazigo do cemitério parque?

Na minha pesquisa encontrei uma tese sobre o Direito Funerário, onde o autor descobriu que nossas leis protegem o jus sepulchri, ou seja, o direito de sepultar. E o estudioso vai além, ao concluir que um jazigo ou cova só pode ser penhorado se estiver vazio.

Ainda bem, né? Já pensaram, vivíssimos leitores, se os Tribunais começassem a permitir a penhora dos restos mortais dos tais “entes queridos”? Fico imaginando os editais de leilão: “- Vende-se pelo melhor lance restos mortais seminovos, com tíbias e crâneo em perfeito estado” ou, pior ainda, uma ação de despejo contra o mau pagador das mensalidades. Como seria feito esse despejo? Ao invés de Oficiais de Justiça, seriam peritos do IML a executar o despejo. E onde colocariam os tais restos mortais? No deposito judicial eles não poderiam ficar, porque além da insalubridade, os servidores de lá reclamariam do mal-assombrado.

Pensando nisso, decidi que quando eu morrer quero que coloquem um celular no meu caixão, que vai servir para chamar um Uber se eu depois de morto mudar de ideia. Mas principalmente servirá para amigos moleques ligarem em dias de cemitério lotado (tipo finados) e fazerem os visitantes correrem de medo ao ouvirem aquele som sair de dentro de um jazigo debaixo da terra.

Creiam que eu vou gostar muito mais do que as lagrimas que derramarem pela minha morte.

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