26/02/2017 às 08h38min - Atualizada em 26/02/2017 às 08h38min

Como era o carnaval

Coluna do advogado Marcos Pires
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Desde muito novo, com 4, 5 anos, eu já frequentava as matinês do clube Cabo Branco. Lembro de fantasias do Zorro e do patrulheiro Todd. O destaque era para as lanças perfume Rodouro, que usávamos em batalhas no salão de baile.

Como é que nunca passou pela cabeça daquelas crianças cheirar as lanças perfume?

Mais taludos, eu e meus amigos tínhamos um roteiro imutável. De manhã íamos às matinais da A.A.B.B.. À tarde era a vez do corso. Uma coisa de se ver. As nossas famílias alugavam jipes sem capota ou kombis das quais tiravam as portas, nos quais fazíamos continuas voltas que iam da praça João Pessoa ao palácio do Bispo procurando molhar e sujar com talco os passageiros dos outros automóveis que faziam o mesmo percurso. Isso em tese. Na pratica a agua não era assim tão limpa e o talco era substituído por outras substancias melequentas, que desciam numa gradação da Maisena à graxa de sapato.

Chegávamos em nossas casas imundos e passávamos um bom tempo tirando aquela porcaria porque à noite havia sempre o Cabo Branco. Era nos bailes do clube que as paqueras do corso prenunciavam namoros.

Esses bailes eram engraçadíssimos. Todo mundo rodando pelo salão numa mesma direção, um movimento que lembrava as pás de um moinho. A isso chamávamos dançar. O salão ficava tão cheio que se você levantasse um pé, era difícil achar espaço para baixa-lo depois.

Os encrenqueiros teimavam em ir na contramão e logo eram retirados pelos membros da Diretoria, que naquele tempo serviam de seguranças. Havia um encrenqueiro mais conhecido, de uma família de encrenqueiros, que um dia descalçou os sapatos no meio do salão e disse que quem pisasse naquele chulé iria se ver com ele. Era cômico ver aquela multidão dançando e arrodeando o par de sapatos, como se fosse um poço sem fundo.

O danado era a quarta-feira de cinzas. Terminado o carnaval as moças ficavam esperando em suas casas a possível chegada do seu par, naquela dúvida atroz; “- Será que eu estou namorando, será que não estou?”.

Uma enorme amiga me falou dessa angustia: “- Marquinho, seria maravilhoso que para cada falso namoro desses, o pinto do cabra-safado diminuísse um centímetro”.

Ui!

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